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segunda-feira, 23 de maio de 2011

A dor da alma e a dor do outro

 Escrito por Virgilio Gomes

Doenças afetivas e ansiedade crescem e serão mais incidentes num futuro programado para ser feliz ~ (THIAGO LOTUFO)
Por mais que se tente, ninguém sente (ou talvez jamais sentirá) a dor do outro. E isso vale, principalmente, para a dor com raízes na mente humana, como é o caso da depressão e da ansiedade – dois distúrbios responsáveis pela metade (740 milhões de pessoas) das doenças mentais estimadas no mundo. Esses males causam um sofrimento terrível. Geram angústia e desespero, suas origens não são muito claras e as sensações que provocam – por mais que produzam sintomas identificáveis por um especialista – beiram o intraduzível. A dor causada pela depressão e pela ansiedade é diferente de uma dor de cabeça ou de uma dor decorrente, por exemplo, de um tombo: ela dói, metaforicamente, lá no fundo da alma. E o pior é que essa dor, de acordo com especialistas e com a Organização Mundial de Saúde (OMS), só tende a aumentar. No próximo milênio a mente vai estar mais doente do que nunca. “As doen-ças mentais tendem a proliferar como resultado de múltiplos e complexos fatores sociais, biológicos e psicológicos. Elas são respostas já esperadas de doenças físicas graves e da guerra e do trauma. Mas também de condições sociais adversas, como as altas taxas de desemprego, a educação precária e a pobreza”, afirmou a OMS num relatório publicado este ano. E mais: “Nas próximas décadas tudo indica que as doenças decorrentes de distúrbios mentais e de problemas neurológicos serão ainda maiores.”
É um paradoxo. “Vivemos numa época que teoricamente teria tudo para ser agradável. Os avanços tecnológicos, os procedimentos médicos sem dor”, afirma Cláudio Guimarães, médico do Laboratório de Neurociências da Universidade de São Paulo (USP). “E ao mesmo tempo sentimos uma sensação enorme de vazio interior.” Segundo a OMS, no mundo todo há cerca de 340 milhões de pessoas com depressão ou transtorno bipolar, dois distúrbios pertencentes ao grupo das doenças afetivas (relacionadas ao humor). A organização estima também que uma em cada cinco pessoas vai ter depressão em algum momento da vida e que, a cada ano, devem surgir dois milhões de novos casos da doença.
Transtornos – No Brasil, ela atinge mais de dez milhões de pessoas. A ansiedade patológica e os transtornos decorrentes dela (transtorno do pânico, fobias, transtorno obsessivo-compulsivo) são as doenças mentais mais f requentes. Elas acometem 400 milhões de pessoas e estima-se que 20% da população estará sujeita a um dos transtornos ao longo da vida. “A fobia social é um dos mais comuns, com uma prevalência de até 13%”, diz o psiquiatra do Hospital das Clínicas, Tito Paes de Barros. Outro dado importante é o fato de que a depressão e os transtornos da ansiedade se manifestam, em média, duas vezes mais na população feminina (uma das explicações seria as alterações hormonais da mulher).
Todos esses números dão uma importante dimensão do problema e servem como um alerta para o crescimento dessas doenças no próximo milênio. “Não dá para dizer em quanto elas vão aumentar. Mas é inegável que tanto a ansiedade como a depressão vão crescer no futuro”, diz o psicólogo José Roberto Leite, coordenador da unidade de medicina comportamental da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Uma das razões para o crescimento é o aumento da população mundial e da longevidade. A OMS estima que em 2025 o planeta terá cerca de oito bilhões de habitantes, sendo 1,2 bilhão com mais de 60 anos. Ou seja, serão mais pessoas com doenças e por mais tempo (a depressão, por exemplo, requer tratamento por muitos anos e, às vezes, pela vida toda). “Há também maior informação sobre a depressão e a ansiedade e mais diagnósticos sendo feitos”, explica o psiquiatra Ricardo Moreno, coordenador do Grupo de Doenças Afetivas (Gruda) do Hospital das Clínicas de São Paulo. Mas existem também outros fatores para explicar o aumento desses distúrbios. O psiquiatra paulista Henrique Del Nero, por exemplo, afirma: “A exclusão social, a incerteza e a falta de perspectivas aumentam a ansiedade e os quadros leves e moderados de depressão.” Para ilustrar o que fala, ele cita uma máxima: “Na mesa do justo não há de faltar o pão. Na época em que o justo não tem pão, aumenta a depressão.” E completa: “Cada vez mais está faltando pão.”
Mas como o pão de cada dia pode influenciar a mente humana? A depressão não é uma doença biológica com base genética cada vez mais reconhecida? É. E, assim como os transtornos de ansiedade, está relacionada a desequilíbrios de neurotransmissores (substâncias químicas responsáveis pela transmissão de informação entre um neurônio e outro) no cérebro. O fato é que a ciência ainda não desvendou totalmente quais são os fatores capazes de desencadear esses desequilíbrios. Sabe-se que a hereditariedade é um ponto importante, mas também sabe-se hoje que fatores ambientais como violência, falta de emprego, separação, perda, problemas conjugais, entre outros, são capazes de afetar a vulnerabilidade de uma pessoa a problemas mentais. Por isso, pode-se dizer que os distúrbios da mente têm, além da genética, origens biopsicossociais. São doenças que se manifestam a partir da interação do homem com os outros e com o meio em que vive. Aqui, vale lembrar que não existe ser humano fora do ambiente físico e natural nem distante de uma sociedade. Assim como não há peixe fora d’água. “A mente é o cérebro inserido numa cultura”, resume Luiz Altenfelder, psiquiatra do Hospital do Servidor Público de São Paulo.
Reações – A ansiedade, por exemplo, é uma emoção normal que nos alerta para situações novas ou de perigo. É uma reação positiva do organismo que leva uma pessoa a se preparar para uma prova ou treinar para uma competição. Quando essa reação é exagerada e desproporcional aos estímulos a ansiedade torna-se um problema que, além do medo e da apreensão, causa sintomas físicos, como taquicardia, sudorese e diarréia, e psíquicos, como nervosismo, tensão e dificuldade de concentração, capazes de afetar o pensamento, a percepção e o aprendizado. “Os distúrbios de ansiedade são reações do homem frente às suas vivências”, diz Altenfelder. “O transtorno de pânico pode ser uma reação aguda a um determinado fato da vida do indivíduo. E uma fobia social, como, por exemplo, não conseguir falar em público, uma reação crônica”, completa o especialista. Ou seja, por trás de um quadro ansioso pode existir uma situação de vida mal resolvida, que pode ser, entre outras, uma mudança de emprego, a perda de um parente ou a separação do marido ou da mulher.
A perda de referências no mundo atual – de acordo com especialistas – contribui também para que a mente adoeça. “Estamos sem bússola”, constata o psicanalista Jorge Forbes. Para ele, a ansiedade decorre da necessidade (ou dever) de o indivíduo fazer algo sem ter um mapa ou roteiro para orientá-lo nessa realização. “Tínhamos uma sociedade organizada com símbolos que ofereciam uma identificação coletiva e padrões de comportamento felizes”, analisa Forbes. Exemplos: o papel do pai dentro da família, a representatividade da pátria ou até mesmo os sistemas econômicos como o comunismo e o capitalismo. “A globalização pulverizou esses valores”, diz o psicanalista. “Como consequência, as pessoas tiveram de se responsabilizar mais pelo que desejam. E isto gera mais ansiedade.” Segundo Forbes, um dos objetivos da psicanálise é despertar o homem para lidar melhor com os seus desejos. “Hoje, temos menos bandeiras. Lutamos menos por ideais”, diz o psiquiatra Luiz Altenfelder.
Incertezas – Para o neurocientista Cláudio Guimarães, nós estamos sem pele, expostos e sedentos por certezas que a mídia, a religião, a política e a ciência não estão sendo capazes de dar. Guimarães diz que certas fases da história, como o Egito Antigo, a Grécia Clássica e a Idade Média, tinham padrões de referência que produziam uma sociedade mais estável. Em seu livro Ano 1000 ano 2000: na pista de nossos medos, o historiador francês George Duby ressalta que a sociedade medieval possuía uma qualidade fundamental para o bem-estar do ser humano: a solidariedade. “...assim segue o homem do ano 1000, mal alimentado, penando para, com suas ferramentas precárias, tirar seu pão da terra. Mas esse mundo difícil, de privação, é um mundo em que a fraternidade e a solidariedade garantem a sobrevivência e uma redistribuição das magras riquezas. Partilhada, a pobreza é o quinhão comum. Ela não condena, como hoje, à solidão o indivíduo desabrigado, encolhido numa plataforma de metrô ou esquecido numa calçada...”, escreve Duby.
Mente coletiva – A solidariedade remete à existência de uma mente coletiva, capaz de influenciar o modo de vida de uma sociedade.“O funcionamento da mente é tanto individual quanto cultural”, diz Guimarães. Para o psiquiatra Henrique Del Nero a mente é um palco privado de representações onde transitam pensamentos, vontades, sonhos, memó-rias e sentimentos. “É um meio de realização pessoal e de comunicação com o semelhante”, afirma Del Nero.
Além de trazer um sofrimento emocional maior é certo que o aumento da depressão e da ansiedade também vai elevar os seus custos sociais. Cinco das dez principais causas de incapacitação profissional no mundo são problemas mentais. Entre eles, a depressão, o transtorno bipolar e o transtorno obsessivo-compulsivo. Só nos Estados Unidos os gastos (incluindo os indiretos) com a depressão chegam a US$ 80 bilhões por ano. Em 2020, a OMS prevê que ela será a segunda doença que mais roubará anos de vida útil da população (a primeira continuará sendo problemas cardiovasculares). Fora isso, a chance de um deprimido cometer suicídio é 35 vezes maior do que a de uma pessoa saudável. Em relação à ansiedade, um estudo feito nos EUA, publicado a partir de 1984, constatou que 68% das mulheres e 60% dos homens que tinham transtorno do pânico estavam desempregados na época e que pessoas com este distúrbio procuram atendimento médico sete vezes mais do que a população comum.
Só que apesar do cenário de certa forma sombrio que se desenha para a mente no futuro, não há motivos para alimentar ainda mais uma depressão ou se confinar dentro de casa por causa de um distúrbio de ansiedade: felizmente todo o sofrimento causado por essas doenças tem tratamento. Uma boa notícia é o fato de que desde junho os planos de saúde passaram a cobrir a psicoterapia breve de crise (emergencial, com duração máxima de três meses) e, a partir do ano que vem, eles podem pagar internações psiquiátricas por até seis meses durante um ano. Entre outros recursos terapêuticos, existem remédios, que atuam no desequilíbrio químico dos neurotransmissores, e terapias, que tratam as relações da pessoa com o meio e investiga os fatores estressores que agem no seu psiquismo. Aliado a esses conhecimentos médicos, qualquer ajuda para quem sofre da alma deve contribuir, fundamentalmente, para a erradicação de uma palavra horrenda: estigma – uma marca vergonhosa que só aumenta o preconceito e os estereótipos (como, por exemplo, achar que o deprimido é alguém preguiçoso ou fraco de caráter) em relação ao doente mental e que o faz ser rejeitado pelas pessoas “normais”. E a importância dessa atitude está na obrigação, tanto da medicina quanto da sociedade, de – mudando um pouco os versos de Caetano Veloso – ensinar cada um a sentir menos dor e saber mais da delícia de ser o que é.

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