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quinta-feira, 28 de julho de 2011

Quando a bebida se torna um problema?

jul 29
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sábado, 25 de junho de 2011

Problemas Psiquiátricos Causados pelo Alcoolismo



Abuso de Álcool
A pessoa que abusa de álcool não é necessariamente alcoólatra, ou seja, dependente e faz uso continuado. O critério de abuso existe para caracterizar as pessoas que eventualmente, mas recorrentemente têm problemas por causa dos exagerados consumos de álcool em curtos períodos de tempo. Critérios: para se fazer esse diagnóstico é preciso que o paciente esteja tendo problemas com álcool durante pelo menos 12 meses e ter pelo menos uma das seguintes situações: a) prejuízos significativos no trabalho, escola ou família como faltas ou negligências nos cuidados com os filhos. b) exposição a situações potencialmente perigosas como dirigir ou manipular máquinas perigosas embriagado. c) problemas legais como desacato a autoridades ou superiores. d) persistência no uso de álcool apesar do apelo das pessoas próximas em que se interrompa o uso.
Dependência ao Álcool
Para se fazer o diagnóstico de dependência alcoólica é necessário que o usuário venha tendo problemas decorrentes do uso de álcool durante 12 meses seguidos e preencher pelo menos 3 dos seguintes critérios: a) apresentar tolerância ao álcool -- marcante aumento da quantidade ingerida para produção do mesmo efeito obtido no início ou marcante diminuição dos sintomas de embriaguez ou outros resultantes do consumo de álcool apesar da continua ingestão de álcool. b) sinais de abstinência -- após a interrupção do consumo de álcool a pessoa passa a apresentar os seguintes sinais: sudorese excessiva, aceleração do pulso (acima de 100), tremores nas mãos, insônia, náuseas e vômitos, agitação psicomotora, ansiedade, convulsões, alucinações táteis. A reversão desses sinais com a reintrodução do álcool comprova a abstinência. Apesar do álcool "tratar" a abstinência o tratamento de fato é feito com diazepam ou clordiazepóxido dentre outras medicações. c) o dependente de álcool geralmente bebe mais do que planejava beber d) persistente desejo de voltar a beber ou incapacidade de interromper o uso. e) emprego de muito tempo para obtenção de bebida ou recuperando-se do efeito. f) persistência na bebida apesar dos problemas e prejuízos gerados como perda do emprego e das relações familiares.
Abstinência alcoólica
A síndrome de abstinência constitui-se no conjunto de sinais e sintomas observado nas pessoas que interrompem o uso de álcool após longo e intenso uso. As formas mais leves de abstinência se apresentam com tremores, aumento da sudorese, aceleração do pulso, insônia, náuseas e vômitos, ansiedade depois de 6 a 48 horas desde a última bebida. A síndrome de abstinência leve não precisa necessariamente surgir com todos esses sintomas, na maioria das vezes, inclusive, limita-se aos tremores, insônia e irritabilidade. A síndrome de abstinência torna-se mais perigosa com o surgimento do delirium tremens. Nesse estado o paciente apresenta confusão mental, alucinações, convulsões. Geralmente começa dentro de 48 a 96 horas a partir da ultima dose de bebida. Dada a potencial gravidade dos casos é recomendável tratar preventivamente todos os pacientes dependentes de álcool para se evitar que tais síndromes surjam. Para se fazer o diagnóstico de abstinência, é necessário que o paciente tenha pelo menos diminuído o volume de ingestão alcoólica, ou seja, mesmo não interrompendo completamente é possível surgir a abstinência. Alguns pesquisadores afirmam que as abstinências tornam-se mais graves na medida em que se repetem, ou seja, um dependente que esteja passando pela quinta ou sexta abstinência estará sofrendo os sintomas mencionados com mais intensidade, até que surja um quadro convulsivo ou de delirium tremens. As primeiras abstinências são menos intensas e perigosas.
Delirium Tremens
O Delirium Tremens é uma forma mais intensa e complicada da abstinência. Delirium é um diagnóstico inespecífico em psiquiatria que designa estado de confusão mental: a pessoa não sabe onde está, em que dia está, não consegue prestar atenção em nada, tem um comportamento desorganizado, sua fala é desorganizada ou ininteligível, a noite pode ficar mais agitado do que de dia. A abstinência e várias outras condições médicas não relacionadas ao alcoolismo podem causar esse problema. Como dentro do estado de delirium da abstinência alcoólica são comuns os tremores intensos ou mesmo convulsão, o nome ficou como Delirium Tremens. Um traço comum no delírio tremens, mas nem sempre presente são as alucinações táteis e visuais em que o paciente "vê" insetos ou animais asquerosos próximos ou pelo seu corpo. Esse tipo de alucinação pode levar o paciente a um estado de agitação violenta para tentar livrar-se dos animais que o atacam. Pode ocorrer também uma forma de alucinação induzida, por exemplo, o entrevistador pergunta ao paciente se está vendo as formigas andando em cima da mesa sem que nada exista e o paciente passa a ver os insetos sugeridos. O Delirim Tremens é uma condição potencialmente fatal, principalmente nos dias quentes e nos pacientes debilitados. A fatalidade quando ocorre é devida ao desequilíbrio hidro-eletrolítico do corpo.
Intoxicação pelo álcool
O estado de intoxicação é simplesmente a conhecida embriaguez, que normalmente é obtida voluntariamente. No estado de intoxicação a pessoa tem alteração da fala (fala arrastada), descoordenação motora, instabilidade no andar, nistagmo (ficar com olhos oscilando no plano horizontal como se estivesse lendo muito rápido), prejuízos na memória e na atenção, estupor ou coma nos casos mais extremos. Normalmente junto a essas alterações neurológicas apresenta-se um comportamento inadequado ou impróprio da pessoa que está intoxicada. Uma pessoa muito embriagada geralmente encontra-se nessa situação porque quis, uma leve intoxicação em alguém que não está habituado é aceitável por inexperiência mas não no caso de alguém que conhece seus limites.
Wernicke-Korsakoff (síndrome amnéstica)
Os alcoólatras "pesados" em parte (10%) desenvolvem algum problema grave de memória. Há dois desses tipos: a primeira é a chamada Síndrome Wernicke-Korsakoff (SWK) e a outra a demência alcoólica. A SWK é caracterizada por descoordenação motora, movimentos oculares rítmicos como se estivesse lendo (nistagmo) e paralisia de certos músculos oculares, provocando algo parecido ao estrabismo para quem antes não tinha nada. Além desses sinais neurológicos o paciente pode estar em confusão mental, ou se com a consciência clara, pode apresentar prejuízos evidentes na memória recente (não consegue gravar o que o examinador falou 5 minutos antes) e muitas vezes para preencher as lacunas da memória o paciente inventa histórias, a isto chamamos fabulações. Este quadro deve ser considerado uma emergência, pois requer imediata reposição da vitamina B1(tiamina) para evitar um agravamento do quadro. Os sintomas neurológicos acima citados são rapidamente revertidos com a reposição da tiamina, mas o déficit da memória pode se tornar permanente. Quando isso acontece o paciente apesar de ter a mente clara e várias outras funções mentais preservadas, torna-se uma pessoa incapaz de manter suas funções sociais e pessoais. Muitos autores referem-se a SWK como uma forma de demência, o que não está errado, mas a demência é um quadro mais abrangente, por isso preferimos o modelo americano que diferencia a SWK da demência alcoólica.
Síndrome Demencial Alcoólica
Esta é semelhante a demência propriamente dita como a de Alzheimer. No uso pesado e prolongado do álcool, mesmo sem a síndrome de Wernick-Korsakoff, o álcool pode provocar lesões difusas no cérebro prejudicando além da memória a capacidade de julgamento, de abstração de conceitos; a personalidade pode se alterar, o comportamento como um todo fica prejudicado. A pessoa torna-se incapaz de sustentar-se.

sábado, 11 de junho de 2011

O que é uma “doença mental”?


“Doença mental” engloba um amplo espectro de problemas patológicos que afectam a mente, usualmente provocando grande desconforto interior e alterando comportamentos. Provoca uma enorme variedade de sintomas entre as quais queixas a nível do humor, ansiedade, memória, percepção e pensamento. Diferentes sinais e sintomas reúnem-se e evoluem no tempo, caracterizando as diferentes doenças mentais, que têm em comum tornarem a pessoa disfuncional, a nível pessoal, familiar, social e laboral, alterando, tanto pela intensidade como pela persistência, o dia-a-dia da pessoa que sofre.


 O que causa uma “doença mental”?
A doença mental, tal como a maioria das doenças, é multifactorial, ou seja, resulta da combinação de diferentes factores. Assim é na conjugação da nossa base genética com o meio que nos envolve e seus momentos ou períodos importantes (facilitadores/desencadeadores) que a doença pode surgir, repentinamente ou de forma mais insidiosa. Uma das clássicas formas de olhar para as causas da doença mental, subdivide-as em doenças de causa endógena (resultado de factores hereditários e constitucionais), em doenças de causa exógena, sendo que estas, ao contrário das primeiras, são mais reactivas ao acontecimentos do dia-a-dia e menos dependentes da nossa genética, biologia e fisiologia. Seja qual for a causa existe sofrimento psicológico usualmente com repercussões a nível físico.
 
  
Mitos associados às doenças mentais
1. As pessoas que sofrem de doenças mentais nunca irão recuperar
As doenças mentais tratam-se e a maior parte dos doentes recuperaram a saúde. As doenças mentais devem ser encaradas do mesmo modo como se olha para as doenças físicas.
2. Pessoas com doenças mentais são perigosas e devem ser excluídas da família, da comunidade e da sociedade?
Não. Os doentes mentais não representam perigo acrescido para a família, comunidade ou sociedade. Por esse motivo, devem ser tratadas adequadamente e inseridas na comunidade, sem medo ou exclusão. Assim, dentro das suas limitações, poderão levar uma vida normal, feliz e produtiva.
3. A doença mental deve-se à pobreza e/ou pouca inteligência
Em geral a doença mental, tal como outras doenças físicas, pode afectar qualquer pessoa, independentemente da sua idade, emprego ou habilitações escolares; claro que há doenças que afectam a inteligência e que se procuram tratar.
4. A doença mental é causada por fraqueza individual
Estas pessoas não escolhem ficar doentes, trata-se de uma doença e não de uma fraqueza de carácter.
5. A doença mental é uma doença rara
Doenças mentais (ansiedade, depressão, esquizofrenia, etc.) podem afectar qualquer pessoa em qualquer época da sua vida. Podem causar mais sofrimento e incapacidade que qualquer outro tipo de problema de saúde. A Organização Mundial de Saúde, em 2001, refere que 1 em cada 4 pessoas poderá ser afectada, ao longo da sua vida, por uma doença mental.


Estigma das doenças mentais
As pessoas com doença mental descompensada agem de forma diferente devido à sua doença. São marcados como diferente e dificilmente aceites pelos demais. Pessoas nestas condições atraem medo, hostilidade e desaprovação em vez de compaixão, apoio e compreensão. Com o tempo, começam a sentir-se como estranhos e excluídos da sociedade. O estigma relacionado com a doença mental provém do medo do desconhecido e de um conjunto de falsas crenças originadas pela falta de conhecimento e compreensão dos diferentes tipos de patologias.

Assim, o estigma são como que rótulos negativos usados para identificar pessoas que sofrem de doenças mentais, criando barreiras que impedem os indivíduos e suas famílias de procurar ajuda, pelo medo de serem excluídos. A exclusão e discriminação é pois o resultado dos estigmas e preconceitos contra o doente e a doença mental e são um grande obstáculo à recuperação do doente mental e sua participação na sociedade, pois restringem as oportunidades a que as pessoas com doenças mentais têm direito. Lembre-se:

- Não há nada de que se envergonhar.
- O estigma abarca tudo e todos os que se relacionam com a pessoa que sofre de uma doença mental.
- A sociedade em geral está menos preparada para aceitar e ajudar as pessoas com doença mental do que as pessoas com doença física.
Cuidar sim, discriminar não. Cada ser humano nasce e desenvolve-se de maneira única. Nenhuma pessoa é igual à outra, reconhecer isso é fundamental para compreender e respeitar os diferentes.

Há qualquer coisa que não está bem com alguém que conheço

 
Está preocupada(o) com a alteração de comportamento de alguém que conhece?
Se alguém que conhece começou a ficar confuso, evita as pessoas, tem ideias que não estão de acordo com as de todas as outras pessoas, comporta-se de forma diferente do que seria de esperar, então é importante falar com um médico para se ter orientação e ajuda…
A razão para estas mudanças pode estar no desenvolvimento de uma doença, pelo que quanto mais cedo for consultado um(a) médico(a) melhor.

 Lista de pistas importantes a considerar:
» Deixou de falar com familiares ou amigos
» Perdeu a vontade e motivação para as actividades habituais
» Começou a ficar com medo(s) ou com desconfianças sem motivo
» Deixou de se alimentar, come às escondidas
» Dorme mal ou não consegue dormir toda a noite
» Começou a ter ideias estranhas
» Ouve vozes que mais ninguém consegue ouvir
» Tem graves dificuldades de concentração
» Diz ou escreve coisas que não fazem sentido
» Abusa de álcool ou drogas


Como conseguir ajuda?
» Incentivar a pessoa a procurar um médico
» Oferecer suporte, acompanhando a pessoa ao médico
» Sugerir que se escreva algumas notas em conjunto, para ajudar a explicar o que se passa na consulta
» Se a pessoa recusa tratamento, procure o médico para poder ter conselho e orientação.

E quanto às drogas?

Por vezes os familiares ou amigos ficam preocupados sem saber se a alteração de comportamentos está relacionada com o consumo de drogas, o que se verifica em alguns casos. Algumas pessoas que começam a desenvolver problemas psiquiátricos consomem álcool ou drogas para se sentirem melhor ou como um sinal de que precisam de ajuda. Embora estes consumos possam fazer com que essa pessoa se sintam momentaneamente bem, o que realmente acontece é um agravamento dos sintomas e uma maior dificuldade na recuperação.
Dificultando ainda mais estas questões, há que dizer que as drogas podem produzir sintomas semelhantes às queixas das doenças psicóticas como a esquizofrenia. Por exemplo, o álcool ou o haxixe podem produzir uma perda da noção da realidade e a sensação de que se é vigiado, perseguido ou atacado. Se os sintomas são devidos ao consumo de drogas (psicose secundária ao consumo) deverão desaparecer completamente após o fim do consumo, quando a droga for eliminada do corpo.
Já o uso prolongado de certas drogas pode produzir efeitos de longa duração. Se o consumo de drogas começar a interferir no dia-a-dia, causando problemas em casa, na escola ou no trabalho, a ajuda médica deve ser procurada quanto antes. O Médico de Família pode fazer uma avaliação clínica para saber se existe algum problema psiquiátrico que origina esses consumos e que deve ser tratado, ou se as pessoas devem ser desde logo encaminhadas para centros de tratamento de álcool ou drogas. Algumas vezes pode existir mais de uma doença psiquiátrica.
Pode ser muito difícil para os familiares perceberem a influência do álcool ou drogas no comportamento do indivíduo. Estes assuntos são complicados e não há nada como procurar ajuda de especialistas.
Incentive a consulta a um(a) médico(a)
 
Algumas vezes isto pode ser muito difícil, pois a/o doente sente que criticam o seu comportamento, sente que os outros estão contra si e pode estar com medo ou revoltada(o). Algumas das vezes também se podem encontrar confusos, tendo problemas para ordenar os pensamentos de maneira a explicar o que se pode estar a passar consigo… ou podem-se estar a sentir com muito medo ou ansiosos… ou podem não ter a consciência que estão doentes.
» Fale destes problemas quando sentir que a pessoa está calma, momento em que é mais provável que haja cooperação da parte desta. Ex: gostava de poder falar contigo acerca de um assunto importante – é boa altura agora ou é melhor falar mais tarde?
» Peça a outra pessoa que fale com o familiar ou amigo se sente que este não confia ou antipatiza consigo. Deve-se focar no que a outra pessoa deve estar a sentir, mantendo-se imparcial. Inicialmente é melhor centra-se nos problemas que a outra pessoa se sente à vontade para falar. Ex: eu sei que nos últimos dias tens tido problemas para dormir e estar concentrado. Gostarias de falar com o médico?
» Leve as pessoas a pensar que o médico é alguém que ajuda a resolver situações difíceis e que não vai julgar os comportamentos.
» Sugira que a ida ao médico é apoiada por si e por outras pessoas.
» Discuta a situação com o médico, especialmente se há resistência por parte do outro. Lembre-se de registar de forma simples e claras as suas preocupações.
Se há muita resistência a ir visitar o médico, consulte-o primeiro para discutir e planear soluções. Poderá ser possível e útil o médico ir a casa avaliar a pessoa. Se não for possível, o médico poderá sempre dar esclarecimentos e ajudar os amigos e familiares que estão preocupados. Em Portugal existe uma lei que obriga a pessoa a ser tratada mesmo contra a sua vontade, sempre que, após a avaliação médica, se concluir que a pessoa tem uma doença mental grave, que a pessoa não se apercebe da gravidade da doença, que a pessoa não se quer tratar e que o estado clínico em se encontra pode ser perigosa para si ou para outros.
Para isso, é necessário que alguém (familiar, amigo, vizinho) procure ajuda no delegado de saúde da área de residência. Lembre-se sempre que o primeiro passo é o mais difícil.
Como saber mais?
Para mais informações consulte o seu médico, que se achar necessário orientará para uma consulta de especialidade. Em caso de urgência, dirija-se ao serviço de urgência da sua área de residência. Não se acomode. Quando algo está mal, procure ajuda!

Testemunhos

M.M. 22 anos
Assisti a uma conferência há 2/3 anos dada pela Dra Filipa Palha, cujo objectivo era apresentar a Encontrar-se. Confesso que gostei da sua exposição, daí ter procurado mais informações acerca da associação. Infelizmente já tive 2 problemas psiquiátricos graves, em que perco a minha identidade, tornando-me completamente dependente de alguém que cuide de mim. Aconteceu isto quando tive uma Depressão e uma Rotura Psicótica devido a Stress Interpessoal. Foram tempos horríveis, em que só me lembro de alguns episódios soltos, e em que, devido à medicação ou pelo próprio estado em que me encontrava, muita coisa esqueci.
E ainda bem. Sei que, felizmente, estou bem melhor, apesar de ainda medicada para evitar possíveis recaídas e por ser, por natureza, uma pessoa ansiosa. Nunca estive internada (porque a minha mãe não deixou e preferiu ficar ela comigo, abdicando do seu emprego durante algum tempo), mas sei o que custa sofrer ou ter sofrido de uma doença psiquiátrica grave e, por isso, fico feliz que esta associação exista. Tive sorte no meio do azar, apesar de ter sido mal diagnosticada primeiramente, mudei de psiquiatra e melhorei a olhos vistos.
Aconselho quem sofrer de alguma doença deste foro a procurar bons profissionais, já que, infelizmente, nem todos o são. Hoje em dia consigo ser a pessoa que sempre fui, mais madura talvez, acho que se aprende sempre que estas doenças batem à porta.. Consigo acordar todos os dias com um sorriso e agradecer por estar como estou. Tenho amigos, família e, acima de tudo, saúde! É o bem mais precioso que podemos ter.. o resto, o amor, a felicidade, o sentimento de plenitude e de realização pessoal e profissional.. vem por acréscimo! Obrigada a todas as pessoas que me ajudaram a ultrapassar os problemas mais graves da minha vida.. sobretudo à minha mãe e ao meu médico.
Sofia – 32 Anos
A Sofia tem 32 anos, tem formação superior e fala-nos da sua experiência com a “depressão, com traços bipolares” que diz, “ainda ter…”
Deixamos aqui a transcrição do seu email onde nos conta um pouco da sua experiência com a doença mental.
“Obrigada por existirem. Faz falta um trabalho sério. Confesso que foi das coisas que mais senti falta e que me fez sentir mais desamparada. Principalmente quando fui confrontada com a bipolaridade.
Procurei associações, linhas de apoio. Além de ter sido atendida em associações por pessoas sem qualquer formação, a frustração foi maior quando numa noite de desespero tentei apoio numa linha que supostamente evita suicídios. Ninguém atendeu! Como tudo começou é algo que procuro descobrir há já alguns anos. Identifico como ponto de viragem da minha vida a saída da minha terra natal e, por conseguinte, de casa de meus pais, para estudar em Lisboa. Mas acho que tudo já estava dentro de mim. E a minha natureza acabaria por se revelar.
Em quase 15 anos, têm sido várias as depressões
Vário os medicamentos. Muitos deles completamente ao lado e que só pioraram o meu estado
Inúmeras crises
Muitos cortes, muitas marcas no corpo
Muito álcool. Alguns excessos
Muitos gastos incontrolados
Vários diagnósticos
Muitas fugas para a frente
Duas tentativas de suicídio. Com a última cheguei mesmo a morrer, para ser depois trazida de volta
Muita luta
Muita solidão e incompreensão. Por parte das mais variadas pessoas: colegas, familiares, marido, amigos, médicos… da sociedade!
Uma perna partida é fácil entender, mas afinal quem tenta entender o que não vê? Para compreender o que nunca experiênciou? Para compreender o outro?
E “afinal que razões pode ter uma mulher, bonita, inteligente, simpática, educada, saudável, com família, amigos, para deprimir? Deve ser falta do que fazer! Eu cá não tenho tempo para isso!!!” Quantas vezes ouvimos isto…
Confesso que já estou habituada aos altos e baixos.
O pior foi a minha última grande depressão ter-me custado a vida que tinha e que tanto lutei para alcançar. Por causa da minha doença mental, de mau diagnóstico e pior acompanhamento perdi o tudo o que tinha alcançado e deixei a vida que sempre sonhei para mim, o meu emprego de sonho, a minha carreira, “amigos”. Por pouco perdia também o casamento. É como se um dia tivesse adormecido feliz, meio doente talvez, mas com a minha tão sonhada toda no sítio; mais tarde acordo, doente, com a vida num frangalho, irreconhecível.
Actualmente estou bem acompanhada, bem medicada. Durmo! Que sensação
Tenho evoluído! Sinto-me mais segura, mais tranquila, mais consciente de mim, da minha doença, dos riscos, de como ir controlando cortes e desesperos agudos. Hoje abraço e tenho orgulho na minha diferença, que tantas vezes me valeu o rótulo de “fora da norma”
Só ainda não consegui reconstruir a minha vida profissional e financeira…
Sempre tive muita esperança, muita certeza e acreditar no amanhã!
Talvez pareça incoerente, mas no meio do sofrimento, da solidão, da incompreensão, sempre soube que há uma luz ao fundo do túnel. Sei que estou neste mundo para ser feliz. E vou sê-lo. Só há momentos muito difíceis. Que quando se soma e se faz um balanço, parecem ser o real somatório de tudo.
Os cortes, as tentativas de suicídio… no fundo mais não são que tentativas de pôr fim à dor imensa que por vezes toma conta de mim e por momentos atinge proporções insustentáveis. Mas quando o Sol brilha, como este amanhecer de hoje promete, vejo que há realmente coisas muito boas. Por muito que tenha perdido o rumo e ande hoje tão perdida, vale a pena lutar e estar cá!
Sonho-me tranquila, segura, feliz!
Sonho-me de volta ao meu sucesso, de volta à minha vida preenchida e interessante!
Sonho com uma vitória desta luta conta o estigma e o preconceito associados às doenças mentais!”
P.S. Só uma última nota relativamente à falta de apoio que temos neste país: na minha última tentativa de suicídio, o psiquiatra do hospital deu-me alta logo no dia seguinte. Falou comigo 5 minutos e mandou-me pra casa, sem medicação, sem apoio, apenas confiando que eu não iria tentar novamente. Aliás, numa altura tão complicada como uma tentativa de suicídio, senti-me muito maltratada no hospital, pois qualquer enfermeiro e/ou auxiliar que passasse perto da minha cama, comentava a minha tentativa de uma forma pejorativa. Chegaram a vir-me perguntar, ainda toda entubada e ligada, o que tinha na cabeça!
M.H 50 anos
Chamo-me M.H., tenho 50 anos e sofro de PERSONALIDADE BORDERLINE GRAVE NIVEL 3, estando a ser seguida no Hospital Magalhães Lemos desde 2003. Ontem por casualidade fui a um café em Leça e destaquei uma folha duma revista em que fala da UPA.
Fiquei deveras feliz. Feliz porque não estou só nesta longa caminhada que são estas doenças do foro psiquiátrico e mais, pela discriminação que sofremos cada um de nós que padece desta s doenças sem telas pedido.
Falo pela experiência.
Andei desde 2000 no Hospital de S. João em Psiquiatria por sofrer de anorexia nervosa. Tinha lá uma excelente Médica, mas mudaram-me para um Médico que era o extremo oposto; não digo aqui os nomes pois respeito os nomes e a individualidade das pessoas que lá me trataram, mas falo de pessoas que com quem convivi aqui perto de casa, pois moro na Senhora da Hora, E chamaram-me de drogada pelo aspecto magro que tinha; anormal, maluca; agora deu-lhe para isto; enfim não acabaria aqui de enumerar as palavras ditas por pessoas sem escrúpulos e eu comecei cada vez mais a isolar-me a exclui-las e não falar.
Curei-me da anorexia e em 2003 passei para o Magalhães Lemos aonde encontrei pessoas que me dignificaram, que não me apontam os dedos, mas sim que me tratam com zelo e carinho, pois afinal somos todos iguais. Tenho o meu corpo todo auto-mutilado por razões que eu ainda não sei tenho alturas em entrar em pânico ansiosa e vêm a cabeça ideias de cortar-me e tenho de passar ao acto, mesmo com a medicação, mesmo pedindo ajuda ao médico; ai corto-me e sinto um alívio como se tivesse tomado uma caixa de valium’s. è u m paradoxo mas é a realidade.
Agora quando ando na rua tenho que ter os braços tapados, pois senão todos me olham e perguntam o que tem nos braços; há alturas em que digo foi um acidente, mas há sempre aquele olhar que nos mata. É uma realidade que somos postos de lado. A nossa sociedade ainda não se consciencializou para estas doenças. Pensa que quem anda num hospital psiquiátrico ou num psiquiatra é maluca ou doido.
Fico feliz por existirem.
Ter-me-ão junto de vós.
Perdi pessoas que amava e amei durante anos… mas ganhei o carinho e o exemplo das suas vidas.
Perdi momentos únicos da minha vida porque em vez de sorrir chorava.
Mas a vida é um baile e tenho de seguir em frente mesmo com as quedas e falhas aprenderei com os erros como lições de vida

ASSOCIAÇÃO DE APOIO ÀS PESSOAS COM PERTURBAÇÃO MENTAL GRAVE – www.encontrarse.pt

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

UM RELATO EMOCIONANTE DE UMA MULHER ALCOÓLICA

Pensei que o álcool fosse Deus
Fui criada como filha adotiva, e aos sete anos fui deixada num orfanato. As freiras no orfanato estavam sempre a rezar para o seu Deus, mas eu não conseguia encontrar esse Deus com quem elas viviam falando.
Aos nove anos, experimentei o gosto de um vinho. Disse então, comigo mesma: "É este, portanto, o Deus de quem elas falam tanto." Pensei que o álcool fosse Deus.
Fui expulsa da escola porque entrei no meio de uma discussão sobre grupos étnicos. Uma das garotas me xingou: "Seus porto-riquenhos". E eu avancei sobre ela. Quando voltei a mim, estava presa numa camisa-de-força. "Você sabe o que fez ontem à noite?", perguntou a enfermeira. E eu disse: "Não." A enfermeira então me contou que eu havia lutado com outra garota. Ela já estava inconsciente, mas eu continuava a berrar que queria arrancar-lhe o coração. E para fazê-lo, havia quebrado uma garrafa de refrigerante.
Eu queria cair fora do orfanato, e para isso me casei. Quando estava grávida de cinco meses, meu marido me deixou e se alistou no exército. Procurei minha sogra para pedir-lhe ajuda. Ela me deu uma garrafinha de uísque e disse? "Tome um golinho disto, à noite que você vai dormir bem. Você não vai ter problema algum." Eu bebi tudo o que tinha na garrafa.
Fui então à Cruz vermelha, para descobrir o que fazer da minha vida. Disseram-me que a única saída era o trabalho, dedicando-me a dois empregos. E as minhas garrafinhas me acompanhavam aos dois.
Trabalhei e poupei dinheiro, e quatro anos mais tarde meu marido voltou. Ele disse que podíamos juntar os cacos e começar de novo da estaca zero. Com o dinheiro que eu havia poupado, compramos uma doceria, onde também vendíamos bebidas alcoólicas e acabamos nos envolvendo em vários negócios ilícitos.
Havia algo de errado comigo. Eu vivia expulsando meu marido da loja, para poder ficar bebendo o dia inteiro, enquanto ele permanecia fora. Tinha certeza de que meu marido não me amava, que as crianças não me amavam, que ninguém me compreendia. Eu precisava de alguma razão para viver.
Consegui um emprego de garçonete num bar, onde não me faltavam homens e álcool. Tinha tudo que quisesse e pensei que enfim eu era feliz. Queria livrar-me do meu marido; quando os tiras passaram pelo bar procurando por ele, eu lhes disse onde encontrá-lo. Os detetives foram buscá-lo, e ele foi condenado por assassinato.
Enquanto meu marido cumpria pena, perdi o meu emprego de garçonete. Não conseguia fazer mais nada a não ser beber. Mas tinha que sobreviver, e as únicas pessoas a quem ainda podia me dirigir eram os fregueses habituais do bar. Fiz uma série de coisas erradas, mas pensava que estava tudo bem, porque afinal de contas, meus filhos tinham o que comer.
Eu me sentia desgraçada, achava que não merecia continuar vivendo, que havia pecado contra as leis de Deus. Sentia-me imunda. Por três vezes tentei suicidar-me. Tentei levar as crianças comigo, a fim de que não sofressem o que eu já havia sofrido. Abri as torneiras de gás, bebi um galão de gin e sentei-me à espera da morte. Um vizinho arrombou a porta e me levou ao hospital. Lá me disseram que eu tinha problemas com a bebida, mas eu não quis ouvir. Queria morrer bêbada.
Saindo da prisão, meu marido resolveu ir embora com sua amante. Tive que vender minha casa e mudar-me para um apartamento sem móveis. Três vezes fui atacada na rua por homens que queriam violentar-me; na terceira vez, fui espancada tão violentamente que passei três meses no hospital. Queria então, vingar-me de todos os homens.
Passei a vagar pelas ruas, provocando qualquer homem a tentar fazer qualquer coisa comigo, para que eu pudesse matá-lo e ir para a cadeia. Bebida e bolinhas me levaram novamente ao hospital. Lá o psiquiatra me disse que eu tinha problema com a bebida, e que eu deveria ir procurar A. A., mas respondi que não podia viver sem a bebida.
Mesmo assim fui para A. A., e quando participei da primeira reunião, só vi muitos homens. Eu odiava homens, queria vê-los todos mortos. Mas fiquei sentada, lembrando o que havia dito o médico: "Vai, senta, escuta!" (Não pude ir sóbria - havia tomado alguns tragos antes). Lembro-me de ter ouvido que o alcoolismo é uma doença progressiva, e que agora eu tinha uma boa oportunidade de construir uma nova vida para mim mesma.
Por três meses permaneci em A. A. ainda bebendo, perguntando a mim mesma: "Por que não consigo parar? Talvez eles estejam mentindo. Têm que estar bebendo!" Então, certa noite, após ter tomado três doses durante o dia, estava assistindo a uma reunião, e pela primeira vez em muitos anos senti que meu coração batia forte. E disse comigo mesma: "Se isto é Deus, se esta é Tua presença, permite-me que me agarre a um fiozinho dessa Tua corda e por ele puxa-me para fora da garrafa, de modo que eu possa caminhar entre as pessoas novamente." Eu sabia que algo de maravilhoso estava acontecendo, e saí daquela reunião com um sentimento incrível de leveza. Isto foi num dia 3 de julho; eu comemoro meu aniversário de A. A. no Dia da Independência dos Estados Unidos - 4 de julho, que é também o dia em que declarei minha independência da garrafa.
O início não foi nada fácil, mas o meu padrinho me ajudou a passar por esta fase. Depois, comecei a prestar serviços dentro do meu grupo. Passados dois meses, transferi-me para o escritório intergrupal, onde respondia aos telefonemas pedindo ajuda em espanhol. Hoje, sou grata a Deus por ter feito essas coisas, porque através delas, pude manter-me afastada dos meus amigos de copo. Hoje coordeno atividades institucionais no Comitê Hispânico.
Estou também retornando à escola. Sei que existem muitas mulheres como eu, especialmente entre as que têm nacionalidades hispânicas. Levo uma vida maravilhosa, e noite após noite, rezo para que possa levar a mensagem de A. A. a mais um alcoólico.

sábado, 27 de novembro de 2010

Problemas Psiquiátricos Causados pelo Alcoolism


Abuso de Álcool
 

A pessoa que abusa de álcool não é necessariamente alcoólatra, ou seja, dependente e faz uso continuado. O critério de abuso existe para caracterizar as pessoas que eventualmente, mas recorrentemente têm problemas por causa dos exagerados consumos de álcool em curtos períodos de tempo. Critérios: para se fazer esse diagnóstico é preciso que o paciente esteja tendo problemas com álcool durante pelo menos 12 meses e ter pelo menos uma das seguintes situações: a) prejuízos significativos no trabalho, escola ou família como faltas ou negligências nos cuidados com os filhos. b) exposição a situações potencialmente perigosas como dirigir ou manipular máquinas perigosas embriagado. c) problemas legais como desacato a autoridades ou superiores. d) persistência no uso de álcool apesar do apelo das pessoas próximas em que se interrompa o uso.
 

Dependência ao Álcool
Para se fazer o diagnóstico de dependência alcoólica é necessário que o usuário venha tendo problemas decorrentes do uso de álcool durante 12 meses seguidos e preencher pelo menos 3 dos seguintes critérios: a) apresentar tolerância ao álcool -- marcante aumento da quantidade ingerida para produção do mesmo efeito obtido no início ou marcante diminuição dos sintomas de embriaguez ou outros resultantes do consumo de álcool apesar da continua ingestão de álcool. b) sinais de abstinência -- após a interrupção do consumo de álcool a pessoa passa a apresentar os seguintes sinais: sudorese excessiva, aceleração do pulso (acima de 100), tremores nas mãos, insônia, náuseas e vômitos, agitação psicomotora, ansiedade, convulsões, alucinações táteis. A reversão desses sinais com a reintrodução do álcool comprova a abstinência. Apesar do álcool "tratar" a abstinência o tratamento de fato é feito com diazepam ou clordiazepóxido dentre outras medicações. c) o dependente de álcool geralmente bebe mais do que planejava beber d) persistente desejo de voltar a beber ou incapacidade de interromper o uso. e) emprego de muito tempo para obtenção de bebida ou recuperando-se do efeito. f) persistência na bebida apesar dos problemas e prejuízos gerados como perda do emprego e das relações familiares.
 


Abstinência alcoólica
A síndrome de abstinência constitui-se no conjunto de sinais e sintomas observado nas pessoas que interrompem o uso de álcool após longo e intenso uso. As formas mais leves de abstinência se apresentam com tremores, aumento da sudorese, aceleração do pulso, insônia, náuseas e vômitos, ansiedade depois de 6 a 48 horas desde a última bebida. A síndrome de abstinência leve não precisa necessariamente surgir com todos esses sintomas, na maioria das vezes, inclusive, limita-se aos tremores, insônia e irritabilidade. A síndrome de abstinência torna-se mais perigosa com o surgimento do delirium tremens. Nesse estado o paciente apresenta confusão mental, alucinações, convulsões. Geralmente começa dentro de 48 a 96 horas a partir da ultima dose de bebida. Dada a potencial gravidade dos casos é recomendável tratar preventivamente todos os pacientes dependentes de álcool para se evitar que tais síndromes surjam. Para se fazer o diagnóstico de abstinência, é necessário que o paciente tenha pelo menos diminuído o volume de ingestão alcoólica, ou seja, mesmo não interrompendo completamente é possível surgir a abstinência. Alguns pesquisadores afirmam que as abstinências tornam-se mais graves na medida em que se repetem, ou seja, um dependente que esteja passando pela quinta ou sexta abstinência estará sofrendo os sintomas mencionados com mais intensidade, até que surja um quadro convulsivo ou de delirium tremens. As primeiras abstinências são menos intensas e perigosas.
 

Delirium Tremens
O Delirium Tremens é uma forma mais intensa e complicada da abstinência. Delirium é um diagnóstico inespecífico em psiquiatria que designa estado de confusão mental: a pessoa não sabe onde está, em que dia está, não consegue prestar atenção em nada, tem um comportamento desorganizado, sua fala é desorganizada ou ininteligível, a noite pode ficar mais agitado do que de dia. A abstinência e várias outras condições médicas não relacionadas ao alcoolismo podem causar esse problema. Como dentro do estado de delirium da abstinência alcoólica são comuns os tremores intensos ou mesmo convulsão, o nome ficou como Delirium Tremens. Um traço comum no delírio tremens, mas nem sempre presente são as alucinações táteis e visuais em que o paciente "vê" insetos ou animais asquerosos próximos ou pelo seu corpo. Esse tipo de alucinação pode levar o paciente a um estado de agitação violenta para tentar livrar-se dos animais que o atacam. Pode ocorrer também uma forma de alucinação induzida, por exemplo, o entrevistador pergunta ao paciente se está vendo as formigas andando em cima da mesa sem que nada exista e o paciente passa a ver os insetos sugeridos. O Delirim Tremens é uma condição potencialmente fatal, principalmente nos dias quentes e nos pacientes debilitados. A fatalidade quando ocorre é devida ao desequilíbrio hidro-eletrolítico do corpo.
 

Intoxicação pelo álcool
O estado de intoxicação é simplesmente a conhecida embriaguez, que normalmente é obtida voluntariamente. No estado de intoxicação a pessoa tem alteração da fala (fala arrastada), descoordenação motora, instabilidade no andar, nistagmo (ficar com olhos oscilando no plano horizontal como se estivesse lendo muito rápido), prejuízos na memória e na atenção, estupor ou coma nos casos mais extremos. Normalmente junto a essas alterações neurológicas apresenta-se um comportamento inadequado ou impróprio da pessoa que está intoxicada. Uma pessoa muito embriagada geralmente encontra-se nessa situação porque quis, uma leve intoxicação em alguém que não está habituado é aceitável por inexperiência mas não no caso de alguém que conhece seus limites.
 

Wernicke-Korsakoff (síndrome amnéstica)
Os alcoólatras "pesados" em parte (10%) desenvolvem algum problema grave de memória. Há dois desses tipos: a primeira é a chamada Síndrome Wernicke-Korsakoff (SWK) e a outra a demência alcoólica. A SWK é caracterizada por descoordenação motora, movimentos oculares rítmicos como se estivesse lendo (nistagmo) e paralisia de certos músculos oculares, provocando algo parecido ao estrabismo para quem antes não tinha nada. Além desses sinais neurológicos o paciente pode estar em confusão mental, ou se com a consciência clara, pode apresentar prejuízos evidentes na memória recente (não consegue gravar o que o examinador falou 5 minutos antes) e muitas vezes para preencher as lacunas da memória o paciente inventa histórias, a isto chamamos fabulações. Este quadro deve ser considerado uma emergência, pois requer imediata reposição da vitamina B1(tiamina) para evitar um agravamento do quadro. Os sintomas neurológicos acima citados são rapidamente revertidos com a reposição da tiamina, mas o déficit da memória pode se tornar permanente. Quando isso acontece o paciente apesar de ter a mente clara e várias outras funções mentais preservadas, torna-se uma pessoa incapaz de manter suas funções sociais e pessoais. Muitos autores referem-se a SWK como uma forma de demência, o que não está errado, mas a demência é um quadro mais abrangente, por isso preferimos o modelo americano que diferencia a SWK da demência alcoólica.
 

Síndrome Demencial Alcoólica
Esta é semelhante a demência propriamente dita como a de Alzheimer. No uso pesado e prolongado do álcool, mesmo sem a síndrome de Wernick-Korsakoff, o álcool pode provocar lesões difusas no cérebro prejudicando além da memória a capacidade de julgamento, de abstração de conceitos; a personalidade pode se alterar, o comportamento como um todo fica prejudicado. A pessoa torna-se incapaz de sustentar-se.

Problemas Clínicos com o alcoolismo



Problemas Clínicos
Diversos são os problemas causados pela bebida alcoólica pesada e prolongada. Fugiria ao nosso objetivo entrar em detalhes a esse respeito, por isso abordaremos o tema superficialmente.
Sistema Nervoso - Amnésias nos períodos de embriaguez acontecem em 30 a 40% das pessoas no fim da adolescência e início da terceira década de vida: provavelmente o álcool inibe algum dos sistemas de memória impedindo que a pessoa se recorde de fatos ocorridos durante o período de embriaguez. Induz a sonolência, mas o sono sob efeito do álcool não é natural, tendo sua estrutura registrada no eletroencefalograma alterado. Entre 5 e 15% dos alcoólatras apresentam neuropatia periférica. Este problema consiste num permanente estado de hipersensibilidade, dormência, formigamento nas mãos, pés ou ambos. Nas síndromes alcoólicas pode-se encontrar quase todas as patologias psiquiátricas: estados de euforia patológica, depressões, estados de ansiedade na abstinência, delírios e alucinações, perda de memória e comportamento desajustado.
Sistema Gastrintestinal - Grande quantidade de álcool ingerida de uma vez pode levar a inflamação no esôfago e estômago o que pode levar a sangramentos além de enjôo, vômitos e perda de peso. Esses problemas costumam ser reversíveis, mas as varizes decorrentes de cirrose hepática além de irreversíveis, são potencialmente fatais devido ao sangramento de grande volume que pode acarretar. Pancreatites agudas e crônicas são comuns nos alcoólatras constituindo-se uma emergência à parte. A cirrose hepática é um dos problemas mais falados dos alcoólatras; é um problema irreversível e incompatível com a vida, levando o alcoólatra lentamente à morte.
Câncer - Os alcoólatras estão 10 vezes mais sujeitos a qualquer forma de câncer que a população em geral.
Sistema Cardiovascular - Doses elevadas por muito tempo provocam lesões no coração provocando arritmias e outros problemas como trombos e derrames conseqüentes. É relativamente comum a ocorrência de um acidente vascular cerebral após a ingestão de grande quantidade de bebida.
Hormônios Sexuais - O metabolismo do álcool afeta o balanço dos hormônios reprodutivos no homem e na mulher. No homem o álcool contribui para lesões testiculares o que prejudica a produção de testosterona e a síntese de esperma. Já com cinco dias de uso contínuo de 220 gramas de álcool os efeitos acima mencionados começam a se manifestar e continua a se aprofundar com a permanência do álcool. Essa deficiência contribui para a feminilização dos homens, com o surgimento, por exemplo, de ginecomastia (presença de mamas no homem).
Hormônios Tireoideanos - Não há evidências de que o alcoolismo afete diretamente os níveis dos hormônios tireoideanos. Há pacientes alcoólatras que apresentam alterações tanto para mais como para menos nos níveis desses hormônios; presume-se que quando isso ocorre seja de forma indireta por afetar outros sistemas do corpo.
Hormônio do crescimento - Alterações são observadas em indivíduos que abusam de álcool, mas essas alterações não provocam problemas detectáveis como inibição do crescimento ou baixa estatura, pelo menos até o momento.
Hormônio Antidiurético - Esse hormônio inibe a perda de água pelos rins, o álcool inibe esse hormônio: como resultado a pessoa perde mais água que o habitual, urina mais, o que pode levar a desidratação.
Ociticina - Esse hormônio é responsável pelas contrações do útero no parto. O álcool tanto pode inibir um parto prematuro como atrapalhar um parto a termo, podendo tanto ser terapêutico como danoso.
Insulina - O álcool não afeta diretamente os níveis de insulina: quando isso acontece é por causa de uma possível pancreatite que é outro processo distinto. A diminuição do açúcar no sangue não se deve a ação do álcool sobre a insulina ou sobre o glucagon (outro hormônio envolvido no metabolismo do açúcar).
Gastrina - Este hormônio estimula a secreção de ácido no estômago preparando-o para a digestão. O principal estímulo para a secreção de gastrina é a presença de alimentos no estômago, principalmente as proteínas. É controverso o efeito do álcool sobre a gastrina, alguns pesquisadores dizem que o álcool não provoca sua liberação, outros dizem que provoca, o que levaria ao aumento da acidez estomacal. Podem provocar úlceras no aparelho digestivo.

ALCOOLISMO - o que é?



O que é?
O alcoolismo é o conjunto de problemas relacionados ao consumo excessivo e prolongado do álcool; é entendido como o vício de ingestão excessiva e regular de bebidas alcoólicas, e todas as conseqüências decorrentes. O alcoolismo é, portanto, um conjunto de diagnósticos. Dentro do alcoolismo existe a dependência, a abstinência, o abuso (uso excessivo, porém não continuado), intoxicação por álcool (embriaguez). Síndromes amnéstica (perdas restritas de memória), demencial, alucinatória, delirante, de humor. Distúrbios de ansiedade, sexuais, do sono e distúrbios inespecíficos. Por fim o delirium tremens, que pode ser fatal.
Assim o alcoolismo é um termo genérico que indica algum problema, mas medicamente para maior precisão, é necessário apontar qual ou quais distúrbios estão presentes, pois geralmente há mais de um.
O fenômeno da Dependência (Addiction)
O comportamento de repetição obedece a dois mecanismos básicos não patológicos: o reforço positivo e o reforço negativo. O reforço positivo refere-se ao comportamento de busca do prazer: quando algo é agradável a pessoa busca os mesmos estímulos para obter a mesma satisfação. O reforço negativo refere-se ao comportamento de evitação de dor ou desprazer. Quando algo é desagradável a pessoa procura os mesmos meios para evitar a dor ou desprazer, causados numa dada circunstância. A fixação de uma pessoa no comportamento de busca do álcool, obedece a esses dois mecanismos acima apresentados. No começo a busca é pelo prazer que a bebida proporciona. Depois de um período, quando a pessoa não alcança mais o prazer anteriormente obtido, não consegue mais parar porque sempre que isso é tentado surgem os sintomas desagradáveis da abstinência, e para evitá-los a pessoa mantém o uso do álcool. Os reforços positivo e negativo são mecanismos ou recursos normais que permitem às pessoas se adaptarem ao seu ambiente.
As medicações hoje em uso atuam sobre essas fases: a naltrexona inibe o prazer dado pelo álcool, inibindo o reforço positivo; o acamprosato diminui o mal estar causado pela abstinência, inibindo o reforço negativo. Provavelmente, dentro de pouco tempo, teremos estudos avaliando o benefício trazido pela combinação dessas duas medicações para os dependentes de álcool que não obtiveram resultados satisfatórios com cada uma isoladamente.
Tolerância e Dependência
A tolerância e a dependência ao álcool são dois eventos distintos e indissociáveis. A tolerância é a necessidade de doses maiores de álcool para a manutenção do efeito de embriaguez obtido nas primeiras doses. Se no começo uma dose de uísque era suficiente para uma leve sensação de tranqüilidade, depois de duas semanas (por exemplo) são necessárias duas doses para o mesmo efeito. Nessa situação se diz que o indivíduo está desenvolvendo tolerância ao álcool. Normalmente, à medida que se eleva a dose da bebida alcoólica para se contornar a tolerância, ela volta em doses cada vez mais altas. Aos poucos, cinco doses de uísque podem se tornar inócuas para o indivíduo que antes se embriagava com uma dose. Na prática não se observa uma total tolerância, mas de forma parcial. Um indivíduo que antes se embriagava com uma dose de uísque e passa a ter uma leve embriaguez com três doses está tolerante apesar de ter algum grau de embriaguez. O alcoólatra não pode dizer que não está tolerante ao álcool por apresentar sistematicamente um certo grau de embriaguez. O critério não é a ausência ou presença de embriaguez, mas a perda relativa do efeito da bebida. A tolerância ocorre antes da dependência. Os primeiros indícios de tolerância não significam, necessariamente, dependência, mas é o sinal claro de que a dependência não está longe. A dependência é simultânea à tolerância. A dependência será tanto mais intensa quanto mais intenso for o grau de tolerância ao álcool. Dizemos que a pessoa tornou-se dependente do álcool quando ela não tem mais forças por si própria de interromper ou diminuir o uso do álcool.
O alcoólatra de "primeira viagem" sempre tem a impressão de que pode parar quando quiser e afirma: "quando eu quiser, eu paro". Essa frase geralmente encobre o alcoolismo incipiente e resistente; resistente porque o paciente nega qualquer problema relacionado ao álcool, mesmo que os outros não acreditem, ele próprio acredita na ilusão que criou. A negação do próprio alcoolismo, quando ele não é evidente ou está começando, é uma forma de defesa da auto-imagem (aquilo que a pessoa pensa de si mesma). O alcoolismo, como qualquer diagnóstico psiquiátrico, é estigmatizante. Fazer com que uma pessoa reconheça o próprio estado de dependência alcoólica, é exigir dela uma forte quebra da auto-imagem e conseqüentemente da auto-estima. Com a auto-estima enfraquecida a pessoa já não tem a mesma disposição para viver e, portanto, lutar contra a própria doença. É uma situação paradoxal para a qual não se obteve uma solução satisfatória. Dependerá da arte de conduzir cada caso particularmente, dependerá da habilidade de cada psiquiatra.



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